terça-feira, 3 de novembro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 76

por

Francisco Petros e José Marcio Mendonça
___________

Terça-feira, 3 de novembro de 2009 - nº 76

Sinais misturados

Nos últimos dias, o que vimos foi um conjunto enorme de dados divulgados que mostraram sinais de recuperação da economia mundial (p. ex., o PIB norte-americano do 3º trimestre do ano que cresceu 3,5% e o desempenho do setor manufatureiro em outubro) e, ao mesmo tempo, deixam dúvidas sobre a sustentação da atividade econômica nos próximos trimestres (p.ex., a fraca recuperação do emprego nos EUA, os fracos dados da indústria na Europa no mês de setembro). Esta conjunção de dados que provoca "confusão mental" é típica de períodos de transição, seja da recessão para o crescimento (o caso atual) ou vice-versa. A nossa análise é que o caminho da recuperação persiste muito mais sólido que o retrocesso. Todavia, este será um período de alteração mais brusca das expectativas. Não há razões objetivas neste momento para que mudemos a nossa opinião favorável à conjuntura de crescimento e nem a solidez dos diversos segmentos de mercado.

No Brasil a recuperação é vigorosa

Todos os sinais da economia brasileira desembocam num claro diagnóstico : a economia está crescendo num ritmo forte, sobretudo do consumo, e quem quiser apostar num crescimento de 6% em 2010 pode estar certo. O investimento lamentavelmente cresce num ritmo muito mais lento por duas razões básicas : o governo não é eficiente para executá-los e o setor privado ainda não tem total confiança na recuperação. O problema brasileiro é o acúmulo de problemas estruturais.

O grande risco : o sistema financeiro dos EUA

Não é apenas a quebra do CIT nos EUA que preocupa. O sistema financeiro dos EUA permanece frágil e com baixa capacidade de emprestar em função da debilidade da sua estrutura de capital e da ausência de confiança dos investidores nas instituições financeiras. Os resultados do 3º trimestre do ano até agora divulgados corroboram estes dois aspectos. Este é o ponto a ser acompanhado como principal fator de risco.

Na economia, adiando o inadiável

O ex-governador Leonel Brizola costumava usar uma expressão dos pagos gaúchos, quando queria indicar que alguém, alguma instituição, estava fugindo do fulcro da questão, tergiversando - estaria costeando o alambrado. Ou saltando de banda na malandra gíria carioca de um passado recente. É dessa forma que as autoridades econômicas brasileiras com o aval de Lula, naturalmente - Deus as livre, se for diferente ! - estão atacando os problemas que se lhe apresentam, depois da passagem mais aguda dos efeitos da quebra financeira mundial. O Real valorizado, que tudo indica veio para ficar nas atuais circunstâncias, ameaça as exportações e põe em risco o futuro de desindustrialização no país ? Além da taxação da entrada de capital externo, estuda-se o depósito em moeda estrangeira e outros tais. As contas públicas, puxadas pelas despesas de custeio da máquina administrativa, salários à frente, furam as metas de superávit primário ? Inventem-se artifícios contábeis e façam-se rezas e figas para que a arrecadação logo se recupere em ritmo alucinante. São meros paliativos para tentar empurrar o problema para quem vem depois. Uma "herança maldita" que está sendo minuciosamente preparada para quem sentar na cadeira presidencial em 2011. Não dá para salvar a indústria brasileira apenas com "câmbio". A chave se chama tornar a produção nacional mais competitiva, sem artificialismo - menos impostos, menos burocracia, melhor infraestrutura, crédito mais abundante e mais barato. E um dos primeiros passos é um governo menos oneroso, menos ávido de recursos da sociedade. Simples assim. Porém, como atacar esses pontos, que são delicados e que, para serem bem resolvidos, implicam contrariar poderosos interesses em um momento em que a prioridade á a urna de 2010 ? Daí as meias soluções que no futuro certamente virarão problemas enormes.

Radar "NA REAL"

Já alertamos os nossos leitores nas últimas colunas sobre a elevação da volatilidade nas próximas semanas. Estamos num período de transição, talvez longo (ao de um trimestre a frente) no qual o grau de inquietações sobre a recuperação da atividade econômica mundial. Todavia, é bom lembrar que estas inquietações se devem apenas em parte aos chamados fundamentos. Há que se considerar o fato de que os valores dos ativos tiveram enorme incremento nos últimos meses e há uma quantidade considerável de investidores querendo "realizar lucros". Isto gera uma pressão momentânea e expressiva sobre os fluxos e a relação entre a oferta e a demanda. Portanto, a vida dos investidores daqui para frente se tornará mais difícil. Todavia, em nossa opinião, a tendência estrutural dos diversos segmentos do mercado financeiro é favorável. A exceção são as apostas relacionadas com a taxa básica de juros do Brasil. Esta vai subir. Se não subir, a inflação sobe.

30/10/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

alta

alta

- Pós-Fixados

NA

estável

alta

Câmbio ²

- EURO

1,4823

estável/alta

alta

- REAL

1,7606

estável/baixa

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

61.545,50

alta/estável

alta

- S&P 500

1.036,19

alta/estável

alta

- NASDAQ

2.045,11

alta/estável

alta

(1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) - Em relação ao dólar norteamericano
NA - Não aplicável

Artifício contábil

Ninguém impôs ao governo - agora que somos até credores do FMI - qualquer meta de superávit primário, aquela economia que o setor público faz para pagar juros de sua dívida e evitar que ela aumente. Assim, ele cumpre se quiser ou não o que estabeleceu. Essa história de deduzir do cálculo do superávit as PPI, as PPPs, o "Minha Casa, Minha Vida", o PAC ou a despesas que seja é apenas conversa para disfarçar o inevitável : no fim das contas, no cofre do tesouro vai sobrar menos dinheiro para cobrir as obrigações financeiras do governo. E a dívida pública vai aumentar - foram mais de 8 pontos percentuais em relação ao PIB em um ano.

Congresso desmobilizado

Cabe ao Congresso fiscalizar e impor limites ao governo no que se refere ao orçamento. Além disso, caberia aos senhores parlamentares exigirem do executivo um "plano de saída" do atual estímulo fiscal dado pelo erário ao setor privado. Contudo, o Legislativo está sem força de atuação em função da dominação que o governo lhe impõe e devido a ausência de uma oposição atuante e com convicções.

Lições para políticos e marqueteiros

Extraído do livro "A conquista da atenção", de Richard P. Adler e Charles M. Firestone, editado no Brasil pela Nobel :

"Havia uma história de que, quando ele estava em campanha para a presidência, Adlai Stevenson [Foi governador do Illinois e candidato duas vezes a presidente dos Estados Unidos da América (1952 e 1956), derrotado em ambas por Dwight D. Eisenhower] fez um discurso para um público entusiasmado no Bennington College. Depois desse discurso, um aluno fascinado correu até ele e disse : 'Senador Stevenson, o senhor vai ter o voto de todos os norteamericanos que pensam !' Stevenson, segundo a história, retrucou : 'Obrigado, mas não é suficiente. Preciso de uma maioria'."

Da série 'Não é eleitoral' I

Em abril, o Conselho de Política Fazendária aprovou uma resolução autorizando os Estados a reduzir ou eliminar a cobrança de ICMS nas contas de assinatura de serviços de internet banda larga popular. Seis meses depois, em outubro, o governador José Serra assinou o decreto adotando a medida no Estado e anunciando o serviço por R$ 29,90. Levou o ato para a plateia do Futurecom, o maior evento de telecomunicações da América Latina, na presença de todos os poderosos executivos do setor. Ótimo. Porém é preciso atentar para alguns detalhes :

- a banda larga popular paulista começa com 200 kbps, quando o mínimo considerado oficialmente é 256 kbps, já considerada uma banda apenas "meio larga".
- a Telefónica, primeira a lançar este serviço, por coincidência, no mesmo dia da assinatura de Serra, está condicionando a entrega da banda larga popular à compra de uma linha fixa da operadora espanhola.

Não, não é o que o malicioso leitor está pensando.

Da série 'Não é eleitoral' II

O Congresso acaba de aprovar uma proposta de iniciativa do governo, instituindo uma gratificação extra para os funcionários públicos. Por desempenho. Ótimo, é o prêmio ao desempenho, um reconhecimento ao trabalho, ao mérito. Porém, é preciso atentar para alguns detalhes :

- a gratificação será paga apenas uma vez, em 2010.
- serão beneficiados somente os funcionários do DNIT, aquela de cuida de estradas.
- a medida de desempenho só será válida para as obras do "PAC", aquele que é uma das vitrines da campanha eleitoral de 2010.

Não, não é o que o malicioso leitor está pensando.

O que é bom, nada

Feitas as contas, apenas no fim de semana, foram consumidas pela imprensa tradicional ou grande imprensa - jornais do Rio, São Paulo e Brasília e revistas semanais - algo como 200 mil palavras sobre a sucessão presidencial, focadas quase que exclusivamente em Dilma e Serra. Apenas o "Estadão" e a "Veja" gastaram bons pares de páginas para registrar a metamorfose física e de personalidade pela qual está passando, nas mãos de seus marqueteiros e consultores, a candidata preferida de Lula. Entre outras coisas, o novo produto a ser apresentado à praça, vai emular em tudo por tudo seu criador político e ressurgirá na condição de candidata "uai" com direito a sotaque mineiro e tudo isso. E, no entanto, em todo esse palavrório, não sobrou nenhuma mísera linha sobre os que os dois pensam a respeito dos grandes problemas nacionais, sobre seus programas de governo. Para se ter uma idéia do tamanho do desperdício de papel e "abobrinhas", o texto desta nota contém 165 palavras.

A oposição em seu labirinto

Os partidos de oposição, especialmente o PSDB, não estão dilacerados apenas por conta da indefinição de quem será o candidato à sucessão de Lula - se Serra ou Aécio - e como será a chapa presidencial. Estão apavorados porque não conseguem encontrar os temas e o tom para se contrapor à (até agora) estratégia eleitoral engendrada pelo presidente Lula. PSDB, DEM e PPS estão literalmente acuados.

É o que parece, sim

Não se deve apenas ao pouco cuidado de Lula e seu pouco compromisso com a "coerência" as contradições das assertivas do próprio a respeito da imprensa. Num mesmo dia em que ele diz aos catadores de papel em São Paulo que a imprensa brasileira não publica o que deve, provocando uma vaia nos jornalistas presentes ao evento, ele reafirma em um jornal da Venezuela sua fé na liberdade de imprensa. Uma coisa não elimina a outra e faz parte da estratégia do lulismo e do petismo em relação ao tema. No atacado, o presidente defende a liberdade de imprensa. E não poderia ser de outro modo. No varejo, ataca a "liberdade" da imprensa brasileira, porque não é a mesma "liberdade" que ele e seu partido defendem, sem o "direito" de fiscalizar o poder público, de publicar notícias que não são agradáveis ao governo. A divergência está no conceito de "liberdade de imprensa" que Lula quer definir ao seu modo. Não nos esqueçamos da tentativa de criar o Conselho Nacional de Jornalismo, as investidas na área do audiovisual, a criação da TV Brasil, pública no nome, mas na prática estatal. Quem duvida, não perde por esperar. Vem aí, em dezembro, a I Confecom - Conferência Nacional de Comunicações para a qual o governo, sindicatos e ONGs estão trabalhando com extraordinário empenho.

CPI do MST pode vingar

Sim, apesar da gritaria exterior do governo, a Comissão para investigar os "feitos" do MST pode funcionar com eficiência - ou seja, investigando mesmo e não apenas trabalhando pro forma. Mas apenas até certo limite, pois a base aliada tem a maioria de seus membros e pode direcioná-la como bem entender. Diz-se em Brasília que há uma malévola intenção oficial dar um susto no MST e em alguns de seus líderes. Primeiro para evitar que eles extrapolem demais, pelo menos publicamente e diante de câmeras de televisão, como no caso do laranjal de SP. E segundo para que seus líderes, como ainda o fez neste fim de semana prolongado João Pedro Stedile, deixem da fazer restrições a Dilma.

____________

A coluna Política & Economia NA REAL, integrante do portal Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada por José Marcio Mendonça e Francisco Petros.

Se você deseja compartilhar gratuitamente estas migalhas, verdadeiras pílulas de sapiência, com algum amigo, alterar seu e-mail, ou cancelar o envio, clique aqui.

____________

Francisco Petros

Economista e pós-graduado em finanças (IBMEC). Trabalha há vinte anos na área de mercado de capitais, especialmente no segmento de administração de fundos e carteiras, corporate finance e consultoria financeira.

Foi Presidente da APIMEC- Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

Jornalista profissional, analista de riscos. Foi diretor da Rádio Eldorado, de São Paulo, e chefe de redação da Sucursal Brasília dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde".

Editou o "Caderno de Sábado", suplemento de cultura o JT. É editor do blog "A política como ela é" e colunista do jornal "Diário do Comércio" (SP).

Política & Economia NA REAL n° 75

por

Francisco Petros e José Marcio Mendonça
___________

Terça-feira, 27 de outubro de 2009 - nº 75

Divergências públicas, insegurança externa

Em uma de suas passagens por Brasília, Lula provavelmente terá de ditar uma daquelas suas "ordens unidas" para enquadrar alguns auxiliares que andam se estranhando de público. As divergências, em muitos casos, geram insegurança externa, principalmente na área sensível da economia. Outras atrasam mais a ação do governo do que os execrados TCU, MP.

1. BC e ministério da Fazenda, que divergem a respeito de tudo, resolveram divergir também a respeito da taxação do câmbio. O BC acha que a medida é, no mínimo, inócua. A Fazenda acha que o BC está muito frouxo.
2. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, também discorda do IOF na entrada de capital estrangeiro especulativo, posição que é também de parte dos empresários.
3. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, passou a defender corte de gastos de custeio do governo e uma reforma da Previdência para que o Brasil possa crescer de forma sustentável. Por falar em ajuste fiscal, em seu boletim trimestral de inflação, a equipe do BC foi tachada de "terrorista" por auxiliares de Mantega. Por sinal, Coutinho é apontado como provável substituto de Meirelles no BC, um estágio probatório antes de assumir o ministério da Fazenda num possível governo Dilma.
4. Há profundas divergências entre o ministro das Comunicações, Hélio Costa, e as equipes do ministério do Planejamento e da Casa Civil a respeito do Plano Nacional de Banda Larga que o presidente Lula quer ver pronto até o dia 10/11 para levar em seguida para as ruas. Tanto é assim que cada lado está preparando o seu próprio projeto - o de Costa envolvendo as teles, o outro privilegiando a ressurreição da Telebrás. Hélio Costa é um ministro incomodado com a insistência do PT em ter candidato próprio ao governo de MG.
5. Batem boca ainda os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário por causa da mudança nos critérios para classificação da produtividade das propriedades rurais e os ministérios do Meio Ambiente e Transportes por causa de licenças ambientais.

Estas divergências naturalmente tendem a se acentuar na medida em que mais e mais o político-eleitoral se misturar com o estritamente técnico.

O imposto sobre o capital externo - I

O debate sobre a procedência e/ou eficiência da tributação sobre o capital entrante destinado a aquisição de ativos de renda fixa e variável (ações) no mercado local é legítimo, mas há uma questão precedente e relevante : os efeitos dos fluxos de capital sobre a administração das contas externas brasileiras. A combinação de um sistema flutuante de câmbio e a liberdade de movimentação financeira tem vantagens (ligadas a certo "realismo" da taxa de câmbio), porém também tem suas desvantagens - os efeitos de curto prazo dos fluxos sobre a sustentabilidade do equilíbrio externo no longo prazo. E a taxação é a única forma de se tentar "controlar" esse processo. Todos sabem disso, os críticos e defensores da medida. O governo optou corretamente pela via tributária para viabilizar a gestão da política cambial e não criar inconsistências intertemporais entre o curto e o longo prazo.

O imposto sobre o capital externo - II

Se o governo agiu certo no sentido de sua ação, não nos parece eficiente a forma da taxação. O governo deveria optar por uma tributação relacionada com o tempo : maior o prazo da aplicação, menor a tributação. Isso remeteria a ideia de tributar "na saída" e não "na entrada". O problema de uma medida desse tipo é que o mercado financeiro provavelmente encontraria formas de "burlar" legalmente esta forma de tributação. É isto que o governo teme. Talvez o mais recomendado fosse que o governo recolhesse o imposto na "entrada", a título de "antecipação" (na fonte) e compensasse tal imposto "na saída". A única coisa certa neste processo é que não se trata de um debate "ideológico" sobre tributação. Este é um problema mundial relacionado à velocidade e quantidade de deslocamento de capitais. Por vezes estes movimentos favorecem ao andamento das economias (como ocorreu depois do ápice da crise iniciada em setembro de 2008) e em outras ocasiões destrói o sadio desenvolvimento das economias (cujos exemplos são inúmeros).

Medida não reverte tendência

A medida tributária adotada pelo governo em relação ao capital externo é um "ruído" na movimentação financeira. Todavia, deve prevalecer o fundamento de que o Brasil é destino privilegiado do capital externo. Assim, a taxa cambial pode ter até um solavanco para cima, mas estruturalmente não sobe. Muitas instituições financeiras apostam em mais queda. Algumas falam num dólar de R$ 1,6 no fim do ano.

Não é apenas o Brasil

Os problemas enfrentados pelo Brasil na gestão da taxa cambial têm de ser visto dentro do contexto mundial. Depois que a crise acalmou lá fora, os investidores que antes correram para o "porto seguro" dos títulos do tesouro norteamericano (até meados deste ano), passaram a apostar em outras moedas em detrimento do dólar. O movimento das moedas principais do mundo é uma enorme preocupação da parte das autoridades econômicas. E não há mecanismos eficientes para controlá-lo.

A política monetária ganha importância

Se há uma variável macroeconômica relevante para sabermos se a economia brasileira estará equilibrada para sustentar o crescimento nos próximos 12 a 24 meses, esta é a administração da taxa de juros básica. Trata-se da ferramenta mais importante para controlar os riscos fiscais expansionistas do governo e a inflação. O tal do "mercado" pode estar subestimando estes riscos. Sobretudo, porque não há certeza sobre a adequada condução do BC nesta matéria. Esta semana sai a ata da reunião do Copom da semana passada, quando poderemos ter algumas indicações de quando o BC pretende começar a mexer nos juros. Para cima, segundo indicações anteriores. De acordo com alguns analistas, porém, entre eles o ex-BC Gustavo Franco, antes de tocar na Selic a autoridade monetária pode aumentar o compulsório dos bancos, reduzido no auge da crise para irrigar o mercado de crédito. Seria uma medida de efeitos menos visíveis, portanto menos traumática do ponto de vista eleitoral.

A política monetária lá fora

Não é apenas o BC brasileiro que está diante de imensos desafios. Ao contrário : os desafios dos principais BCs do mundo, sobretudo o Fed, estão relacionados ao momento em que sinalizarão a elevação das taxas negativas (em relação à inflação) de juros. As autoridades monetárias sabem que a atual política é inflacionária no médio prazo, mas não há ainda evidências suficientes de que o crescimento econômico voltará de forma consistente. Resultado : as autoridades estão fazendo um jogo de palavras pelo qual muito falam e nada dizem sobre o futuro. Assim permanecerá por algum (?) tempo.

E as contas ? - I

Esta é a semana da divulgação do resultado consolidado da contabilidade federal - governo central, BC, Previdência - do mês de setembro. A arrecadação caiu mais de 11% ao mesmo mês do ano passado. O déficit da Previdência passou dos R$ 9 bi. A maior parte das despesas são "incomprimíveis", com diria o ex-ministro Magri. Se novos artifícios fiscais não forem aplicados - aumento dos dividendos das estatais, mais depósitos judiciais - o déficit deve vir alto.

E as contas ? - II

Em que pese o buraco da Previdência estar novamente se alargando, Lula firmou um acordo com as centrais sindicais para atenuar os efeitos do fator previdenciário, criado para evitar as aposentadorias precoces. Por outro lado, não se tem notícia de que o governo esteja empenhado em aprovar a regulamentação dos servidores públicos, proposta pela própria administração Lula, considerada essencial para diminuir o déficit da previdência pública, proporcionalmente muito mais pesado para os cofres do tesouro do que o do INSS. Não há "clima" para votar uma proposta dessas em tempos de eleições.

Radar "NA REAL"

Todos os mercados acionários relevantes do mundo estão com "lucros acumulados" consideráveis. O mesmo raciocínio vale para os ativos de renda fixa. A grande dúvida dos investidores nesta hora é se "realizam lucros" e abandonam posições ou as mantém na expectativa de lucros ainda maiores no futuro. No caso do mercado acionário brasileiro essa dúvida é ainda maior, pela óbvia razão de que os lucros são maiores em relação aos outros mercados. (Há de se considerar que no nosso caso, além da alta de mais de 60% do Bovespa, há a alta do real de mais de 35%. Se combinarmos as duas altas, um investidor estrangeiro ganhou mais de 100% com ativos brasileiros. Uma tentação para realizar lucros). De nossa parte, fazemos a seguinte análise. Há razões sólidas para que esperemos melhorias adicionais no mercado financeiro mundial. Todavia, este será um processo mais lento e comedido até que aumentem as convicções e evidências sobre a sustentação do crescimento econômico no médio prazo.

23/10/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

alta

alta

- Pós-Fixados

NA

estável

alta

Câmbio ²

- EURO

1,5008

estável/alta

alta

- REAL

1,7173

estável/baixa

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

65.058,84

alta/estável

estável/alta

- S&P 500

1.079,70

alta/estável

alta

- NASDAQ

2.154,47

alta/estável

alta

(1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) - Em relação ao dólar norteamericano
NA - Não aplicável

PIB nos EUA

O PIB norteamericano cresceu 0,7% no segundo trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior. Uma taxa muito melhor que aquela que era esperada pelos analistas e investidores. Nesta próxima quinta-feira, será divulgado o PIB do terceiro trimestre. Espera-se um crescimento de 3,5%. Até se verificar se a economia dos EUA está se recuperando o mundo não dormirá em paz. A volatilidade dos mercados subirá nos próximos dias. Trata-se de uma certeza.

Emprego preocupa

Se há uma chance concreta do PIB trazer boas surpresas, a grande preocupação em relação aos EUA é o emprego. A criação de empregos continua capenga, sobretudo em função da fragilidade do setor de construção civil - o qual melhorou o desempenho por causa do aumento das vendas de casas já construídas. A melhoria no emprego será o ponto chave para detonar a euforia dos mercados mundiais. Todavia, se não há mais tempestades na economia norteamericana, o sol ainda não brilha.

Só para lembrar...

A atividade da maior economia mundial caiu em cinco dos últimos seis trimestres...

De que paz nós estamos a falar ?

Estas últimas manifestações da população carioca em Copacabana são muito justificadas. Por razões mais do que óbvias. Contudo, ficam algumas dúvidas inquietantes : os traficantes merecem paz ? Será que estas manifestações defendem a ação coercitiva do Estado na direção do crime ? Não caberia defendê-las ? Não há paz quando não há justiça. Mesmo quando há mortes pelo caminho o Estado tem de agir para conter a criminalidade. No caso do Rio, com muita força.

Serra, Kassab e as marginais

As obras viárias em SP podem até ser necessárias. Mas cabe perguntar às autoridades municipais e estaduais a razão de tanta passividade em relação às alternativas para o caótico trânsito paulistano. Serra é crítico às obras federais, mas em SP age igual ao governo federal : dentro de uma visão puramente desenvolvimentista e sem preocupações com a sustentabilidade ambiental e social. Tudo isto em sintonia com as eleições. Como Lula, a quem critica.

Inteligência ?

Aliás, por falar em tráfego paulistano, ganha um prêmio quem encontrar o menor resquício do que se convencionou chamar "inteligência de tráfego" na ação das autoridades de SP no setor. Falta também mais vontade trabalhar. Quem anda pelas ruas da cidade, vê que aqueles que deveriam orientar e facilitar a circulação de veículos estão simplesmente de canetinha na mão multando.

As articulações tucanas

Já se conhece a ação política de Lula em relação às próximas eleições : o presidente começa a consolidar a candidatura de Dilma dentro de uma visão de "tocadora de obras" e a amarrar esta imagem a uma larga aliança política, consistente com os objetivos eleitorais e com inúmeras inconsistências relacionadas ao perfil ideológico e padrão ético dos partidos e candidatos. De Sarney ao PCdoB cabe tudo no bonde eleitoral do presidente. De outro lado, os tucanos ficam com ensaios relacionados com o acordo de uma "chapa puro-sangue" entre Serra e Aécio. Um jogo desprovido de ligação efetiva com eleitor. Não há ainda no ninho tucano nenhuma razão especial a motivar o eleitor a votar em Serra e/ou Aécio. Não é à toa que o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, pede ação e discurso político. Tem razão Guerra : não há, até agora, reason why para se votar nos "puro-sangue".

Jogo sujo no PSDB

Pode custar mais caro do que imagina a cúpula do PSDB a iniciativa de um empresário amigo (na verdade o ex-deputado Ronaldo César Coelho) de encomendar uma pesquisa ao Ibope para testar a força de uma chapa tucana pura para a presidência - Serra na cabeça e Aécio de vice. Nos arraiais mineiros foi tratada como uma tentativa de criar um fato consumado e como uma traição, palavra forte demais na terra dos Inconfidentes. Difícil será convencer os desconfiados mineiros de que o comando do partido não sabia de nada e que Serra menos ainda. O vazamento da informação talvez tenha sepultado as últimas e remotas chances de uma chapa puro-sangue dos tucanos para a presidência em 2010.

Negócios

De um maldoso de plantão : o contrato de gaveta entre o PT e o PMDB deve ser registrado na Junta Comercial.

Não estão preocupados

O PMDB pode fazer o acordo que quiser agora e em 2010, e não fazer nenhum. Este sabe, como ensinou a máxima de Lula com Jesus/Judas, que qualquer que seja o eleito no ano que vem há de chamar o maior partido brasileiro para a ceia. Com assento privilegiado. O partido está de olho mesmo é nos palanques estaduais, que ajudam a definir as bancadas partidárias na Câmara e no Senado mais do que a eleição federal. O objetivo do PMDB é aumentar seu cacife na Câmara e no Senado. Quem pode ter a bancada reduzida, de acordo com as circunstâncias, é o PT, se tiver de cumprir todas as ordens de Lula para agradar ao PMDB.

Para acabar com as especulações

Vamos aos fatos : a urna eleitoral de 2010 terá a seguinte composição, salvo atropelos de última hora :

1. Dilma Roussef
2. José Serra ou Aécio Neves, hoje com tendências para o primeiro.
3. Marina Silva
4. Mais um ou outro aventureiro insignificante.

Ciro Gomes comporá mesmo a lista de concorrentes em São Paulo.

TCU em negociações

Consta que o ex-ministro José Múcio está tratando para que os "canais" entre o TCU e o governo sejam abertos. Fala-se em diálogo entre o governo e o órgão. Ora, o TCU existe para facilitar o papel constitucional do Legislativo de fiscalizar o governo. Este papel os parlamentares executam com enorme deficiência. A possibilidade de um "diálogo" do governo com o TCU parece ser o sinal claro de que daqui para frente a fiscalização do Executivo pode se tornar apenas "cosmética". O pior dos mundos para os contribuintes. O recrudescimento dos ataques de Lula ao TCU é o sinal mais claro de que a fiscalização incomoda muito o governo. Aliás, ele mostrou isto também na semana passada quando disse que não é papel da imprensa fiscalizar, apenas informar. Outro sinal : o sistemático combate às CPIs, a última a do MST, contra qual o governo move mundos e fundos - mais estes do que aqueles. Deve ser coisa da transparência do republicanismo ao estilo ministro Tarso Genro.

____________

A coluna Política & Economia NA REAL, integrante do portal Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada por José Marcio Mendonça e Francisco Petros.

Se você deseja compartilhar gratuitamente estas migalhas, verdadeiras pílulas de sapiência, com algum amigo, alterar seu e-mail, ou cancelar o envio, clique aqui.

____________

Francisco Petros

Economista e pós-graduado em finanças (IBMEC). Trabalha há vinte anos na área de mercado de capitais, especialmente no segmento de administração de fundos e carteiras, corporate finance e consultoria financeira.

Foi Presidente da APIMEC- Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

Jornalista profissional, analista de riscos. Foi diretor da Rádio Eldorado, de São Paulo, e chefe de redação da Sucursal Brasília dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde".

Editou o "Caderno de Sábado", suplemento de cultura o JT. É editor do blog "A política como ela é" e colunista do jornal "Diário do Comércio" (SP).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 74

por

Francisco Petros e José Marcio Mendonça
___________

Terça-feira, 20 de outubro de 2009 - nº 74

Como nunca antes...

Pense-se num país no qual o governo :

1. Trabalha para reforçar a presença das empresas estatais na economia e criar novas companhias governamentais.

2. Está empenhado em enfraquecer as agências reguladoras, podando sua independência e autonomia.

3. Se esmera para conter o que alguns deles classificam de "sanha fiscalizatória" do TCU, do MP e até de órgão do Executivo como os institutos do meio ambiente.

4. Sistematicamente tente interferir nas decisões empresariais do setor privado (como no episódio Vale) e não perde a oportunidade, em comícios eleitorais, de tentar demonizar as grandes empresas privadas.

5. Por meio de benesses com recursos do Tesouro tenha "amaciado" o mundo sindical e os movimentos sociais (ONGs, entidades estudantis).

6. Tenha realizado a mais bem sucedida e bem planejada ocupação do aparelho estatal por fiéis seguidores, de alto a baixo.

7. Deseja ardentemente exercer algum tipo de controle sobre o que alguns classificam como "imprensa burguesa" ou "grande mídia", pouco influenciável pelos incentivos oficiais.

8. Com um bem sucedido "terrorismo" verbal - utilizando termos tais como, antisocial, contra os pobres, antibrasileiro, antinacionalista - mantenha acuados a oposição e parte da sociedade.

9. Se dedique, sistematicamente, a desqualificar seus críticos.

10. Como nunca antes, tenha investido na franciscana política do "é dando que se recebe" com os aliados.

11. Não tenha muito apego à letra fria da lei.

Pois é : no longo prazo, o que será das instituições e do projeto democrático deste país ?

Eleições : passado e futuro

Estão evidentes as estratégias do PT e aderidos e do PSDB et caterva na campanha eleitoral. Lula quer fazer as comparações entre seu governo e o do presidente FHC. Um olhar sobre o passado. Serra quer fugir desta armadilha e discutir os próximos quatro anos, pós-Lula. Uma tentativa de olhar o futuro. Até agora, os planos de Lula parecem mais bem sucedidos, tal o atarantamento da oposição.

Rumo a 2014

No fundo, no fundo, a estratégia de Lula o torna, bem como o seu governo a grande estrela das eleições. Lula não sai de cena, como normalmente acontece com os governantes em fim de mandato, quando o capim começa a crescer na porta de seu gabinete e o café é servido frio. Dilma é a candidata ideal para um projeto destes, com vistas a 2014.

"Miss simpatia"

Se Serra continuar exibindo o sorriso e a paciência que mostra em público e se sua equipe de comunicação continuar com a simpatia e a eficiência que têm demonstrado, a ministra Dilma Roussef ainda vai ganhar o troféu de Miss Simpatia.

Quem tem a força

O PMDB em muitos Estados ainda resiste a Dilma. A resistência vai ser minada aos poucos, a não ser que a candidatura da ministra da Casa Civil fique patinando. Caso contrário, a adesão virá aos poucos. Afinal, Lula tem a caneta e o PMDB espera apenas que ele comece a usá-la para jurar fidelidade eterna.

Os movimentos das moedas

Na semana passada, os principais comentários nas mesas de operações do mercado financeiro foram relacionados à valorização das principais moedas mundiais frente ao dólar norte-americano. Há até quem comece a prever um colapso do dólar, a reserva de valor do mundo. Sem que tenhamos o objetivo de fazer uma "previsão", vejamos quais são os fatores que estão por detrás deste processo :

1. A recuperação econômica da Europa está sendo mais forte que a dos EUA. Assim sendo, a remuneração dos títulos de renda fixa (com prazo de 5 a 10 anos) do velho continente está subindo, pois os investidores buscam maior rentabilidade no atual cenário de taxas negativas de juros (descontada a inflação projetada);

2. Maior remuneração dos títulos faz com que os fluxos de capital migrem do dólar americano para outras moedas;

3. Portanto, parece que estamos a iniciar - lentamente ! - um processo de elevação dos juros nas principais economias. Isto deve ser visto como um bom sinal, pois é fruto dos bons ventos de uma maior aceleração da atividade econômica.

Todavia, prever o colapso do dólar parece precipitado.

O Real neste contexto

Lula teria autorizado as autoridades econômicas a taxar o capital que ingressa no país. Maior o prazo de investimento, menor a taxa incidente sobre as aplicações e vice versa. De fato, a rápida valorização do real neste ano, mais de 28%, retira competitividade das exportações, muito embora os preços das commodities em alta de certa forma compensem tal valorização. Todavia, o segmento mais dinâmico da economia - a indústria - perde muito com a valorização cambial. Essa medida do governo dificilmente desvalorizará o Real. Pode conter a alta, apenas. Isto se dá em função do fato de que o Brasil é uma das poucas alternativas de investimentos atrativas no atual contexto mundial e o fluxo externo para cá, inclusive da "economia real", é inexorável.

A política monetária do BC

Mais difícil ainda será a manobra da política monetária do BC no atual contexto de valorização do Real. Se elevar os juros, contribuirá decisivamente para manter o Real valorizado e se não subir os juros pode estar ajudando a criar uma conjuntura ostensivamente inflacionária. Há ainda um risco político : o de Henrique Meirelles se isentar de cumprir o seu papel de guardião da moeda, no exato momento em que a sua estrela de político do PMDB sobe. É cotado até para ser candidato a vice-presidente na chapa oficial, caso o chamado "mercado" fique inquieto com o "nacional-desenvolvimentismo" da ministra Dilma. A nota e depois a ata do Copom, sobre a reunião de hoje e amanhã, poderão dar sinais de quando o BC pretende começar a mexer nos juros.

Real valorizado não ajudará na inflação

É improvável uma elevação tão significativa do Real daqui para frente. Portanto, do ponto de vista exclusivamente cambial, a contenção de uma possível inflação futura não contará com o "apoio" da valorização cambial que barateia importações e contém a alta das commodities. No passado (2007, por exemplo), este foi um fator fundamental para reduzir as expectativas de alta da inflação. O BC não terá este benefício daqui para frente.

Radar "NA REAL"

Estão mantidas as tendências estruturais dos principais segmentos do mercado financeiro aqui e no exterior. As possíveis medidas cambiais que podem ser adotadas pelo governo brasileiro para conter a alta do Real não deve mudar a tendência favorável à moeda nacional. É possível que esta seja uma semana mais tensa e com mais volatilidade nos mercados de ações em função da temporada de resultados do terceiro trimestre das empresas cotadas em bolsa nos EUA e na Europa. Atenção redobrada deve ser dispensada ao segmento das instituições financeiras. É muito importante verificar se os bancos mais importantes dos EUA e da Europa, sobretudo ingleses, estão com melhores balanços e resultados. Mantenha-se afastado dos títulos prefixados no Brasil. É hora de ir aumentando a participação de investimentos de curto prazo na carteira de investimento, sobretudo no segmento de renda fixa. Inclusive investindo na caderneta de poupança, a grande estrela da renda fixa brasileira.

16/10/9

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

- Pré-fixados

NA

alta

alta

- Pós-Fixados

NA

estável

alta

Câmbio ²

- EURO

1,4912

estável/alta

alta

- REAL

1,7100

estável

alta

Mercado Acionário

- Ibovespa

66.200,49

alta

estável/alta

- S&P 500

1.087,68

alta

alta

- NASDAQ

2.156,80

alta

alta

(1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) - Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Imóveis : recuperação à vista

Mais um sinal de recuperação da economia dos EUA. O combalido mercado imobiliário americano dá sinais positivos que indicam que o pior já passou no segmento que foi a principal causa da atual crise. As vendas de imóveis usados cresceram mais de 14% em relação ao menor nível alcançado em janeiro deste ano, o início de construções de casas subiu 23%, sendo que houve o aumento de 34% das construções para famílias que têm um imóvel apenas. Este processo se deu em razão do estímulo tributário do governo para o setor e ainda não foi acompanhado pela melhoria do crédito. Estes são os necessários novos passos para indicar uma recuperação consistente.

O fim dos estímulos fiscais

Se há uma tarefa fundamental nas discussões do futuro da economia brasileira é verificar e analisar, inclusive do ponto de vista político, como o governo retirará os estímulos fiscais utilizados para conter a crise. Esta é uma das matérias mais discutidas nos parlamentos mundo afora. Aqui parece que o debate "não pegou".

A volta da CPMF

Na semana passada, líderes do governo no Congresso foram instruídos para não fazer muito barulho em relação às articulações em torno da adoção de uma nova CPMF (CSS), destinada à saúde. Cidadãos, um "novo" imposto vem aí !

Salvos pelas urnas

A CSS pode naufragar somente por uma decisiva razão : os cálculos "custo-benefício eleitorais". Foi esta "matemática" que abateu, pela segunda vez, o plano dos gestores oficiais da economia de taxar a caderneta de poupança e fez o ministro Guido Mantega recuar (será mesmo ?) da manobra, já posta em andamento. Além de atrasar a devolução do IR de quem pagou a mais em 2008, para segurar, artificialmente, o superávit primário deste ano.

Contas de aproximar

Esta semana, salvo algum tropeço, devem ser divulgados os resultados a arrecadação federal no mês de setembro. Anotem bem : mês no qual, segundo o ministro Guido Mantega, a economia já estava "bombando". Aliás, "bombando" desde julho. Porém, de acordo com os primeiros levantamentos, a arrecadação de tributos mês passado não seguiu tal ritmo. Deve ter sido bem inferior à de agosto. No entanto, o governo tem alguns expedientes que pode adotar para tornar o bicho menos feio. Vejamos alguns deles : incorporação de depósitos judiciais, aumento do pagamento de dividendos pelas estatais...

Equívoco ambiental

É justo e necessário que Lula cobre dos países maiores sacrifícios nas questões climáticas para conter o aquecimento global. Esta deve ser a tônica da posição brasileira na Conferência da ONU sobre o tema, em Copenhague, em dezembro. O Brasil pode mudar o jogo. Porém, não é justo que o Brasil, como têm apregoado muitas autoridades, condicione suas ofertas na conferência (limitar o desmatamento na Amazônia, por exemplo) ao que os outros países concederem. Produzir mais limpo, poluir menos, é antes de tudo do interesse dos brasileiros, pela qualidade de vida, pela saúde dos cidadãos. Não pode estar ligado ao que os outros fazem. Ou a saúde do brasileiro, para o governo, só vale se o Obama valorizar a saúde dos americanos ?

Os confrontos no Rio

Embora muitos não aceitem, o fato é que não existem evidências suficientes que contrariem a premissa de que o Brasil é um país muito violento. A mortalidade relacionada à criminalidade é assustadora. Em contrapartida, o assunto carece de políticas públicas mais efetivas para conter a violência, bem como mudanças na legislação. Nem assuntos polêmicos, como a unificação das polícias civil e militar, deveriam ser evitados no atual cenário da criminalidade brasileira. Os enfrentamentos entre a política e os traficantes no Rio não são novidades. De outro lado, não temos nenhuma grande "novidade" para que a sociedade possa enfrentar o crime. Trata-se de um paradoxo evidente : o assunto é relevante, mas pouco se faz para solucioná-lo. Outra coisa : será que este cenário de fato permite que o país possa sediar com segurança eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos ? Por que o turista que virá ao Rio para estes eventos estará mais seguro que os moradores da cidade ? Esta é a Copa e a Olimpíada que o Brasil precisa vencer antes de 2014 e 2016. E isto não se faz com festas, propaganda e palanques.

O que é real

Vamos aos fatos : a implicância do governo federal com o TCU, o MP, o Ibama e até com a lei de licitações, aos quais culpa pelo atraso dos projetos e de obras ao gosto brasiliense, na realidade vem para disfarçar o real responsável por esses atrasos : a conhecida inapetência gerencial e executiva do próprio governo.

Humorista

O dono do futebol brasileiro, Ricardo Teixeira, entusiasmado com os resultados de público (não do jogo em si) da partida da seleção brasileira contra a Venezuela, pretende que os jogos noturnos do Campeonato Brasileiro do ano que vem sejam realizados também às 20h e não mais às quase 22h de hoje. Vai agir bem em cima do JN e da novela das oito que de fato é das nove. Quem quiser ficar rico pode apostar contra o presidente da CBF.

____________

A coluna Política & Economia NA REAL, integrante do portal Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada por José Marcio Mendonça e Francisco Petros.

Se você deseja compartilhar gratuitamente estas migalhas, verdadeiras pílulas de sapiência, com algum amigo, alterar seu e-mail, ou cancelar o envio, clique aqui.

____________

Francisco Petros

Economista e pós-graduado em finanças (IBMEC). Trabalha há vinte anos na área de mercado de capitais, especialmente no segmento de administração de fundos e carteiras, corporate finance e consultoria financeira.

Foi Presidente da APIMEC- Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).

José Marcio Mendonça

Jornalista profissional, analista de riscos. Foi diretor da Rádio Eldorado, de São Paulo, e chefe de redação da Sucursal Brasília dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde".

Editou o "Caderno de Sábado", suplemento de cultura o JT. É editor do blog "A política como ela é" e colunista do jornal "Diário do Comércio" (SP).